A Vila União de Curicica foi uma comunidade carioca que sofreu com um processo de remoção, para a construção do BRT Transolímpico. "Já faz uns 20 anos que eu moro aqui", diz Glória Dionéia Rodrigues de Mattos, de 52 anos, em frente à sua casa, com a Transolímpica ao fundo. "Eles não me ofereceram nada... Nós fizemos a inscrição para pegar o apartamento [do programa Minha Casa, Minha Vida], mas depois disseram que não iam tirar mais e nós não ganhamos nada". Sua casa ganhou rachaduras por conta das construções e dos carros que passam por ali. A princípio, o projeto da Transolímpica visava remover mais de 800 famílias de Vila União, mas, por resistência da comunidade, o trajeto foi alterado, removendo mais de 300 famílias. "Tantas coisas mais sérias para serem resolvidas e eles vieram fazer Olimpíada.... eu trabalho em hospital e eu sei o que está acontecendo. Onde eu trabalho não tem luva para gente trabalhar, não tem medicamento, não tem nada... e eles vieram fazer Olimpíadas aqui", desabafa.


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Moradora do Complexo do Alemão por três anos, sambista Nana Batista viu um homem ser morto pela polícia na porta de sua casa. Para fugir da violência, ela deixou a comunidade com os três filhos para ir morar com sua irmã em Cidade Alta, Cordovil, na Zona Norte do Rio. "Meus filhos não tinham vida. Eu tomo antidepressivo até hoje por causa disso, na época tive uma crise nervosa", diz. Enquanto Nana busca viver com mais tranquilidade, seu samba traz esperança de um futuro melhor, mas há incertezas. "Quero andar outra vez de cabeça erguida, retomar outra vez minha vida. Estampido de bala não pode ser minha canção de ninar", diz o samba de Nana intitulado 'Paz no Complexo do Alemão'. "Há tiroteios todos os dias, nada mudou. A favela não é só o que a mídia diz, tem pessoas com talentos incríveis aqui dentro (da comunidade)", afirma ela que se sustenta com bicos há dois anos, desde que ficou desempregada. "Enquanto eles estão preocupados em maquiar a cidade para a Olimpíada, os problemas continuam. O Estado só maquiou, só preparou pra Olimpíada, mas e depois? O que vai acontecer depois?"


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Luiz Cláudio e Maria da Penha posam dentro da casa container colocada temporariamente pela Prefeitura para as famílias remanescentes da Vila Autódromo. "Eu tenho muitos projetos pela frente, mas eu preciso ter minha vida de volta, porque o poder público tirou durante todos esses anos", diz Luiz Cláudio, professor de educação física e morador da Vila Autódromo, comunidade que virou símbolo de resistência no Rio de Janeiro por ter enfrentado um processo de remoção para as construções do Parque Olímpico, na Barra da Tijuca. De um total de quase 600 famílias, hoje apenas 20 vão receber uma casa nova, com padrões diferentes dos que tinham antes. "A gente conseguiu ficar, que era o que a gente queria", diz Maria da Penha. "Esses últimos anos vivemos aqui dentro de um canteiro de obras, com muita poeira, falta de água, falta de luz (...) vivemos no meio de escombros, casas descaracterizadas... vivemos sem paz, sem tranquilidade", desabafa Luiz. "Minha perspectiva após as Olimpíadas é de que eles devolvam de fato nossas vidas."

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"A UPP é uma falha, parece que eles esqueceram outros projetos de segurança pública no Rio de Janeiro", opina Vitor Santiago Borges, de 30 anos, que em janeiro de 2015 foi vítima da violência aleatória do Estado. Ao adentrar na comunidade Vila do Pinheiro, no Complexo da Maré, em um carro com mais quatro amigos, Vitor foi atingido por militares das Forças de Pacificação do Exército, que ocuparam a comunidade por um ano e três meses. Por conta dos tiros que recebeu no pulmão e na perna, Vitor chegou ao hospital com 7% de chances de sobreviver, ficou paraplégico e teve que amputar a perna esquerda. Irone, mãe de Vitor, que abdicou de trabalhar para cuidar do filho, diz: "Eu acho que a intenção do Governo é acabar com o pobre, porque vem esse modelo de pacificação, mas junto com ele não vêm as questões sociais para a comunidade. Agora querem fazer uma coisa bonitinha pros gringos que vão deixar seus dólares aqui... mas isso vai servir pra mim e pra você? Não vai. Cidade maravilhosa não é pra mim".

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Fechado em janeiro de 2013, o estádio de atletismo Célio de Barros, localizado dentro do Estádio do Maracanã, deixou órfãos milhares de jovens que contavam com o local e seus projetos sociais para treinar. O estádio foi transformado em canteiro de obras para as reformas do Maracanã para a Copa do Mundo e, só após mobilização de atletas e apoiadores o governo estadual anunciou, em 2015, que o Célio de Barros será reconstruído pela Concessionária Maracanã S.A. As obras, porém, só devem começar depois das Olimpíadas. "Não vamos ter legado e o que a gente tinha foi destruído", diz Edneida Freire, 51, treinadora de atletismo. Hoje, com o fim do projeto social Rio 2016, por meio do qual Edneida dava aulas gratuitas a crianças e adolescentes, ela mantém seu compromisso por conta própria, fazendo os treinos em parques e praças públicas da cidade, sem ganhar nada por isso.

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Com esposa e três filhos, o aposentado da construção civil, Carlos Alberto Mattos Carneiro, 58, precisa trabalhar nas ruas para garantir o sustento da família. "Se fosse depender só da aposentadoria, não dava", diz ele, que recebe um salário mínimo por mês. Para complementar, vende algodão doce pelas ruas do Rio de Janeiro. Carlos, porém, não pode aproveitar o fluxo de turistas na região portuária do Rio, que em cinco meses recebeu meio milhão de visitantes. Isso porque os ambulantes são proibidos de circular e vender por ali. "Eles mandam a gente embora e se discutir, a gente apanha, tomam nossa mercadoria e acabou". Sobre a Olimpíada, Carlos afirma: "É bom para o Estado... pra morador de baixa renda não influencia nada não. Nós só pegamos as sobras... Somos barrados das coisas, ficamos isolados."

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Ana Paula Oliveira (ao centro) participa da Vigília da Candelária, ato que lembrou os 23 anos da Chacina da Candelária. "Para nós que somos pobres, moradores de favela, o legado que fica é um legado de sofrimento, de dor e de lágrimas, ainda mais com um aumento das polícias dentro e ao redor das favelas, porque o aumento de polícia para gente significa aumento de violações dos nossos direitos, aumento do extermínio", diz ela, que é mãe de Johnatha, jovem morto aos 19 anos por uma bala perdida da UPP de Manguinhos, comunidade da Zona Norte do Rio de Janeiro, em 2014. "Eu acho que não se deve fazer Olimpíadas ou qualquer outro megaevento em cima do sofrimento de um povo." Segundo relatório da Anistia Internacional, de 2010 a 2015 foram registrados 3.438 homicídios por conta de intervenção policial no Rio de Janeiro, número que aumenta a cada dia.

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Apesar de uma greve de quase cinco meses, os professores da rede estadual do Rio de Janeiro não conseguiram garantir o reajuste do salário exigido pela categoria. Carina Blacutt, 31, professora de filosofia do Colégio Estadual Antônio Houaiss relata que a situação, que já era precária, ficou ainda mais difícil com a crise do Estado: "A situação chegou num ponto em que não era possível mais trabalhar de forma segura", por conta da demissão ou não pagamento do salário de funcionários da limpeza e da segurança. "Quando ele [o governador em exercício Francisco Dornelles] decretou a calamidade pública, foi quando a gente percebeu que a gente ia ser massacrado... porque esse decreto permite tudo, inclusive permite ele de descontar assim e falar 'estamos em calamidade pública' né, e aí a revolta vai ficando maior", diz ela, que teve 17 dias do seu salário de junho descontado, sem aviso prévio. Com quatro filhos, Diana de 13, Arthur e Heitor de 3, e Theo de 2, Carina faz malabarismos para viver. "Você simplesmente não consegue se sustentar numa cidade que é a Cidade Olímpica e onde fica tudo caro, mas o salário não tem esse reajuste."

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